3 Capítulo 3 – Tetraparésia, Problemas Neuromusculares de etiologia desconhecida

Nota Introdutória

O Estudo de Caso enquadra-se no âmbito do Projeto Europeu SENnet e foi desenvolvido no Agrupamento de Escolas Gomes Monteiro, de Boticas, em Portugal.

Pretende averiguar o impacto da utilização de Produtos de Apoio por uma aluna com mobilidade completamente comprometida e no princípio da escolaridade obrigatória. Este quadro afeta seriamente a atividade e participação da aluna, que não é capaz de levar a cabo as rotinas de vida diária. Os produtos de apoio utilizados são uma forma de minorar as suas limitações, permitindo o acesso ao currículo.

É feita uma abordagem ao perfil de funcionalidade da aluna e uma breve caracterização do espaço físico onde esta se insere.

É feita referência ao processo de avaliação para atribuição de produtos de apoio, realizado no CRTIC Chaves.

Visualiza-se a aluna no contexto de sala de aula regular e a envolvência dos intervenientes no processo educativo, no sentido de promover a sua inclusão e autonomia.

Perfil da entidade / equipa que conduz o estudo

O Centro de Recursos TIC para a Educação Especial de Chaves – CRTIC Chaves, está localizado na região de Trás-os-Montes. Esta região possui uma riqueza paisagística e cultural únicas. A população desta região tem como atividades principais a agricultura, a pecuária e o comércio, nos centros urbanos.

O CRTIC é um espaço com boa situação geográfica, boas acessibilidades. Está aberto a toda a comunidade educativa da sua área de abrangência e tem como finalidade, entre outras atribuições, a de responder de forma adequada e personalizada às necessidades específicas da população a que se destina, através dos recursos humanos e da diversidade de recursos materiais específicos.

A população alvo do CRTIC é constituída por todos os alunos da área de abrangência, com limitações significativas ao nível da atividade e da participação num ou vários domínios de vida, decorrentes de alterações funcionais e estruturais, de caráter permanente, resultando em dificuldades continuadas ao nível da comunicação, aprendizagem, mobilidade, autonomia, relacionamento interpessoal e participação social, desde a Intervenção Precoce ao Ensino Secundário.

Autores do estudo

A equipa que conduziu o estudo é constituída pelos docentes em funções no CRTIC Chaves, Maria Adalgisa Portugal Ferreira da Silva Babo e Joaquim Virgílio Perfeito Ribeiro, ambos especializados na área da deficiência Mental/Motora e a exercerem funções na Educação Especial há mais de 25 anos. Estes docentes têm competências técnicas que se evidenciam na manipulação e adaptação de Produtos de Apoio destinados à avaliação dos alunos com Necessidades Educativas Especiais e à sua utilização em contextos diferenciados.

Data do estudo

O estudo teve início em 12 de janeiro de 2012 e final em 23 de maio de 2013. O período de observação decorreu entre 1 de abril e 23 de maio de 2013.

Contexto escolar

A Escola Básica do Agrupamento de Escolas Gomes Monteiro está situada na vila de Boticas, Concelho de Boticas, inserida na região de Barroso, em Trás-os-Montes. O Concelho de Boticas situa-se no Norte de Portugal, na Província de Trás-os-Montes, distrito de Vila Real, Alto Trás-os-Montes. Faz parte também da Associação de Municípios do Alto Tâmega (AMAT). Estende-se por cerca de 322,41 km2 e tem cerca de 5.750 habitantes (censos 2011).

Esta escola serve todo o concelho e está instalada num espaço físico já com umas dezenas de anos em funcionamento. O número total de alunos é de cerca de 420, distribuídos pelos vários anos de escolaridade, desde o 1º ano, até ao 9º ano da escolaridade obrigatória.

Cerca de 16% da população não tem a escolaridade obrigatória, 46% tem a escolaridade básica obrigatória, 11% tem o 2º ciclo do ensino básico e 10% tem o 3º ciclo. Cerca de 10% tem o ensino secundário, este frequentado na cidade de Chaves que dista da vila de Boticas cerca de 25 quilómetros.

Objetivos do estudo

O estudo tem como objetivo geral avaliar o impacto da utilização de Produtos de Apoio na aprendizagem da leitura e da escrita numa aluna portadora de tetraparésia, problemas neuromusculares de etiologia desconhecida, e como objetivos específicos:

  • Observar a interação da aluna com os produtos de apoio;
  • Verificar a rentabilização dos produtos de apoio no processo ensino / aprendizagem;
  • Verificar a necessidade de utilização de outros produtos mais eficazes.

Metodologia do estudo

Este trabalho segue a metodologia de estudo de caso e inclui:

  • Análise documental
  • Observações
  • Reuniões
  • Entrevistas com docente de Educação Especial, Professora Titular de Turma, Encarregada de Educação (mãe).
  • Captação de imagens

Caracterização da aluna

A aluna tem 8 anos de idade. Com base na Avaliação por referência à Classificação Internacional de Funcionalidade Incapacidade e Saúde, a Cristiana apresenta Necessidades Educativas Especiais de Caráter Permanente, que exigem a intervenção dos serviços de Educação Especial.

Segundo o relatório Médico, a Cristiana é portadora de doença neuromuscular de etiologia desconhecida. Está traqueostomizada desde o período neonatal, com necessidade de ventilação mecânica. A mobilidade está gravemente afetada, desloca-se em cadeira de rodas, com almofada de posicionamento e estabilização.

Apresenta dificuldade grave ao nível das funções do aparelho respiratório, precisamente na função da respiração (b440.3).  No que se refere às Funções Neuromusculoesqueléticas a criança tem a mobilidade comprometida, apresentando uma disfunção grave, ao nível das funções relacionadas com a mobilidade das articulações (b710.3),com as funções relacionadas com o controle do movimento voluntário (b760.3) ao nível do controle involuntário (b765.3) e relacionada com os músculos e funções do movimento (b 780.3) – Apresenta ainda incapacidade grave nas funções relacionadas com a força muscular (b730.3), com o tónus muscular (b735.3), com a resistência muscular (b740.3), com os reflexos motores (b750.3) e disfunção completa nas funções relacionadas com o padrão da marcha (b770.4).

Tem grave dificuldade em mudar as posições básicas do corpo (d410.3) e em manter a posição do corpo (d415.3). Revela dificuldade em realizar tarefas como: levantar e transportar objetos ( d430.2), e dificuldade completa em mover objetos com os membros inferiores (d435.4) tem dificuldade grave em realizar atividades de motricidade fina das mãos (d 440.3) e não é capaz, de utilizar o pé (d446.4), andar (d450.4) e deslocar-se (d455.3).

Este quadro afeta seriamente a sua atividade e participação, limitando-a ao nível das tarefas e exigências gerais. Apresenta um défice moderado em levar a cabo tarefas múltiplas (d220.2), em levar a cabo a rotina diária (d230.2) e um défice ligeiro em realizar tarefas simples (d210.1).
Em relação aos Autocuidados, a aluna tem muita dificuldade em cuidar das partes do corpo (d520.3) e em lavar-se ou secar-se (d510.3).  Executa com muita dificuldade tarefas e gestos coordenados para vestir-se (d540.3), comer (d550.2), beber (d560.1) e não consegue cuidar da sua própria segurança (d571.3).

A aluna apresenta necessidade de apoio permanente por parte do adulto para a realização das tarefas, uma vez que todas as áreas do seu comportamento se encontram comprometidas. Realiza as atividades letivas usando um computador, mesmo assim revela cansaço na realização das mesmas, nomeadamente na, escrita e cálculo. Revela dificuldade de concentração, problemas de atenção, manutenção da atenção e distrai-se com qualquer distrator e sem motivo aparente (d160.2).

Revela dificuldade ligeira em resolver problemas simples (d175.1) devido às dificuldades de raciocínio e concentração. Não relaciona os dados fornecidos no sentido de encontrar possíveis soluções para a resolução. Tem muita dificuldade em formular e ordenar ideias, conceitos e imagens. Devido ao seu problema muscular, tem muita dificuldade em manipular objetos para fazer as aprendizagens (d131.2). Ainda não consegue escrever autonomamente com a ajuda do computador (d145.1). Revela insegurança nos conhecimentos e necessita sempre de orientação por parte do professor.

A mãe demonstra bastante preocupação e atenção no acompanhamento da vida escolar e social da aluna.

Os colegas também funcionam como facilitador uma vez que se mostram recetivos e atentos aos problemas da colega (e325.2). É bem aceite pelos pares, pois incluem-na nas suas brincadeiras, mostrando-se sempre disponíveis para a ajudar.

Com base nesta avaliação adotaram-se as seguintes medidas educativas previstas no Decreto-Lei nº 3/2008 de 7 de janeiro:

Apoio Pedagógico Personalizado (Artigo 17º)
(i) Reforço de estratégias a desenvolver com a aluna, no seu grupo/turma, ao nível da organização do espaço e das atividades:

  • Utilização da mesma sala de aula em todas as disciplinas (exceto Educação Física);
  • Organização do espaço da sala de aula em função do posicionamento da aluna, o mais próximo possível do quadro;
  • Utilização de mesa adaptada de forma a evitar posturas incorretas;
  • Uso de quadro branco na sala de aula.

(ii) O reforço e o desenvolvimento de competências de um programa específico a desenvolver pelo docente de Educação Especial em articulação com a família:

  • Programa de promoção de aptidões na utilização dos Produtos de Apoio, estimulando o seu uso e aplicação diária em contextos diferenciados.

Adequações Curriculares Individuais (Artigo 18º)
Dispensa de atividade que se revele de difícil execução em função da incapacidade da aluna

Adequações no processo de avaliação (Artigo 20º)
Alteração do tipo de prova:

  • Elaboração dos instrumentos de avaliação em formato digital e introdução dos mesmos no computador da aluna.

Alteração do tipo de prova:

  • Elaboração dos instrumentos de avaliação em formato digital e introdução dos mesmos no computador da aluna.

Instrumentos de avaliação:

  • Participação oral, fichas de trabalho, testes sumativos, fichas formativas, trabalhos de grupo e outros instrumentos avaliativos específicos das diferentes disciplinas.

Condições de avaliação:

  • Promoção de momentos de avaliação oral;
  • Utilização do software Office para acesso aos instrumentos de registo e de avaliação em formato digital;
  • Alargamento do período de realização dos testes, provas e exames até 30 minutos com possibilidade de realização em sala à parte.
Tecnologias de apoio (Artigo 22º )
Utilização em diferentes contextos do seu quotidiano dos seguintes produtos de apoio:

  • Computador pessoal portátil
  • Kid Keyboard
  • Kidtrack
  • Mesa adaptada.

Metodologia de ensino

O professor de educação especial tem como principais tarefas o reforço e o desenvolvimento de competências básicas na utilização de software específico e também na utilização de software formal, no primeiro caso estamos a falar do “Aventuras II” e no segundo caso estamos a falar do “Word Office”. Assim a professora de educação especial é responsável pela elaboração e desenvolvimento de um programa de promoção de aptidões na utilização dos produtos de apoio aconselhados pelo CRTIC Chaves, estimulando o seu uso e aplicação diária em contextos diferenciados, na escola e em casa.
Tem a responsabilidade de participar na alteração do tipo de prova e na sua elaboração em formato digital, para que aluna tenha acesso à mesma, no seu meio de execução privilegiado.
Este apoio em sala de aula é efetuado durante 3 dias por semana de aulas.

Situação Pedagógica

O tónus muscular não permite que a Cristiana faça a preensão eficazmente e por isso a utilização da mão está seriamente comprometida, uma vez que não consegue segurar o lápis, caneta, colher, etc. Este quadro afeta seriamente a frequência da escola, uma vez que toda a manipulação, dos meios convencionais de realização de tarefas está comprometida (escrita em papel, pintura em papel, leitura em edição livro/papel, etc.).

No que respeita à nossa avaliação, esta realizada em 2010, foram experimentados vários periféricos de acessibilidade, uma vez que o rato convencional existe em casa no PC familiar e sabe-se que não é manipulável pela criança. Normalmente utiliza o KidTrac, Rato joystick, Helpijoy, em jogos de software livre. Mesmo assim nenhum destes periféricos surtiu o efeito desejado, uma vez que requerem, para além da manipulação e coordenação, alguma força muscular ao nível da mão. Experimentou-se por último, o intellikeys e este tipo de teclado foi o mais adequado para a aluna, uma vez que é plano e a aluna pode exercer a pressão nas teclas utilizando toda a superfície da sua mão. Este produto foi utilizado a nível experimental pela aluna para a iniciação ao ambiente informático.

Mais tarde, já em 2012, as características de funcionalidade da Cristiana levam-nos a considerar que o seu desempenho seria otimizado e a aprendizagem da leitura e da escrita, mais dinâmica se fossem utilizados os seguintes produtos de apoio, experimentados durante a reavaliação: o teclado “Kids Keyboard” da “Lifetech” (Porque tem teclas com cores diferentes e de tamanho maior que o convencional, para melhor distinção de letras, números e símbolos, o que permite uma melhor aprendizagem da escrita e da leitura e é facilmente utilizado. As teclas são resistentes e de resposta rápida aos dedos das criança. Também tem uma fácil ligação por tomada USB e ainda software Plug-in); o rato “KidTRAC” (Trackball com forma e dimensão que permitem um apoio adequado de mão. Muito fácil de utilizar, basta ligar ao computador, através de uma porta USB, e começa a funcionar).

A aluna utiliza estes produtos com o software “Office”. No entanto, aconselhámos também a utilização do Software “Aventuras II”, experimentado, uma vez que este pode ser utilizado sistematicamente e uma forma organizada, servir de pasta de trabalho individual, num ambiente virtual de fácil autocorreção.

O próximo passo de uma futura reavaliação, quando a aluna já tiver adquirido os mecanismos da leitura e da escrita, iremos experimentar a utilização de teclados virtuais, com varrimento automático e seleção através de um switch de pressão.

Colaboradores

Este estudo teve a colaboração de:

Aluna – Cristiana Borges Afonso
Encarregada de Educação – Anabela Borges Afonso
Titular da Turma – Rosária Moura Martins
Docente de Educação Especial – Maria Júlia Natividade

Referências bibliográficas e ligações web

ABC.MED.BR, 2013. Tetraplegia: o que é? Quais as causas e os sintomas? Como é o tratamento? Disponível em: <http://www.abc.med.br/p/348064/tetraplegia-o-que-e-quais-as-causas-e-os-sintomas-como-e-o-tratamento.htm>.
Ainscow, M. (1997). Educação para todos: torná-la uma realidade. In Caminhos para as escolas inclusivas, pp. 11-31. Lisboa: Instituto de Inovação Educacional.
Barthorpe, T. (1989). Curriculum accesses for all. Ed. Mike Hinson-Longman
Batshaw, Mark L.; PERRET, Yvonne M.; “ Criança com Deficiência – Uma Orientação Médica“; 1ª Edição, 1990, Livraria Santos Editora
Bautista, Rafael, et al; “Necessidades Educativas Especiais”; 1ª Edição, 1997, DINALIVRO.
Crespo, Alexandra et al; “ Educação Especial – Manual de Apoio à Prática”, 2008, Ministério da educação – DGIDC
Pereira, Filomena;“ Educação Inclusiva da Retórica à Prática – Resultados do plano de Ação 2005 – 2009”, 2009, DGIDC e DSEEASE
Stainback, S.; Stainback, W.; Jackson, J.H. (1999). Hacia las aulas inclusivas. In Susan William (Coord.), Aulas Inclusivas. Madrid: Narcea Editores
Decreto-Lei nº 3/2008, de 7 de janeiro
Classificação Internacional da Funcionalidade, Incapacidade e de Saúde- CIF-CJ
http://moodle.dgidc.min-edu.pt/
http://www.dgidc.min-edu.pt/educacaoespecial/index.php?s=directorio&pid=58

Ligações sobre o estudo

Vídeo –  funcionamento da aluna em ambiente de sala de aula.
https://dl.dropboxusercontent.com/u/28022157/CRTIC%20Chaves_Cristiana_Portugal_2013.m2p
https://dl.dropboxusercontent.com/u/28022157/CRTIC%20Chaves_Cristiana_Portugal_2013.wmv
https://dl.dropboxusercontent.com/u/28022157/CRTIC%20Chaves_Cristiana_Portugal_2013.mov
http://youtu.be/Z4da8KMka60

Slideshre (PT) http://www.slideshare.net/slideshow/embed_code/24837683 

Slideshare (EN) – http://www.slideshare.net/idabrandao/case-study-se-nnetchaves2013en

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