1 Capítulo 1 – Aplicação de Tecnologias de Apoio no Quotidiano de uma jovem com Baixa Visão

Nota Introdutória

O presente Estudo de Caso enquadra-se no âmbito do Projeto Europeu SENnet e foi desenvolvido na Escola Secundária da cidade de Mirandela, em Portugal.

Pretende averiguar a utilização das Tecnologia de Apoio por uma aluna com Baixa Visão nos diferentes contextos do seu quotidiano, aqui utilizadas como uma forma de minorar as suas dificuldades e permitindo desenvolver competências, a motivação e o prazer de aprender.

É feita uma abordagem ao perfil de funcionalidade da aluna, aos seus interesses, necessidades e expectativas e uma breve caracterização do espaço físico e geográfico onde a aluna se insere.

Alude-se ainda a todo o processo avaliativo das Tecnologias de Apoio, realizado pelas autoras do presente estudo no CRTIC Mirandela, com menção às suas características, aplicação, seleção e utilização pela aluna em ambientes diferenciados.

Podem ainda visualizar-se alguns depoimentos sobre o trabalho realizado com a aluna que implica a envolvência diária de todos os intervenientes no processo educativo, no sentido de promover a sua inclusão, a autonomia e a inserção social.

Autores do estudo

O estudo foi desenvolvido pela equipa de docentes do  Centro de Recursos TIC para a Educação Especial de Mirandela (CRTIC Mirandela), com uma área de abrangência na província de Trás-os-Montes e Alto Douro, uma das regiões de Portugal que soube preservar a sobrevivência de tradições culturais que marcam a identidade portuguesa.

Esta região, além da vinha e da imensa riqueza paisagística e cultural, apresenta uma vasta e riquíssima gastronomia. De salientar a área do Alto Douro Vinhateiro, classificada como Património da Humanidade pela UNESCO, onde se produz, há cerca de 250 anos o Vinho do Porto, considerado um dos melhores vinhos do mundo.

A população da área de abrangência do CRTIC Mirandela tem como atividades básicas a agricultura, a pecuária e o comércio tradicional.

O CRTIC Mirandela está sedeado no Agrupamento de Escolas Luciano Cordeiro de Mirandela, distrito de Bragança. É um espaço aprazível com boa situação geográfica, boas acessibilidades, boa luminosidade, aquecimento e mobiliário adequado. Aberto a toda a comunidade educativa da sua vasta área de abrangência tem como finalidade, entre outras, a de responder de forma adequada e personalizada às necessidades específicas da população a que se destina através dos recursos humanos e da diversidade de recursos materiais específicos de que dispõe.

A população alvo do CRTIC é constituída por todos os alunos da área de abrangência com “limitações significativas ao nível da atividade e da participação num ou vários domínios de vida, decorrentes de alterações funcionais e estruturais, de caráter permanente, resultando em dificuldades continuadas ao nível da comunicação, aprendizagem, mobilidade, autonomia, relacionamento interpessoal e participação social” desde a Intervenção Precoce ao Ensino Secundário. Inclui ainda os seus familiares, bem como toda a comunidade educativa que com eles intervém da qual fazem parte professores dos vários níveis de ensino e de educação especial, outros técnicos e assistentes operacionais.

A equipa que conduziu o estudo é constituída pelas duas docentes em funções no CRTIC Mirandela – Luísa Maria de Almeida Correia Pinto Pratas, com especialização em Problemas Motores Profundos a exercer funções na Educação Especial há 27 anos e Maria Irene Machado Miranda, especializada na área da deficiência Mental/Motora e a exercer funções na Educação Especial há 25 anos.

As docentes procederam no ano letivo de 2008/09 à criação, divulgação e dinamização do CRTIC de Mirandela, no qual permanecem em funções. Das aptidões e competências sociais das docentes cabe destacar a boa capacidade de adaptação e organização e o espirito de equipa, desenvolvidos ao longo da vasta experiência profissional. De salientar a boa capacidade comunicativa enriquecida na realização de eventos como exposições, reuniões, workshops, seminários, palestras, entre outros. Relativamente às aptidões técnicas evidencia-se a construção, a manipulação e a adaptação de Tecnologias de Apoio no CRTIC Mirandela, destinadas à avaliação dos alunos com Necessidades Educativas Especiais – NEE e à sua utilização em contextos diferenciados.

Data do estudo

O estudo teve início em 5 de março e final em 20 de junho de 2012. O período de observação decorreu entre 2 de maio e 8 de junho de 2012.

Contexto escolar

A Escola Secundária com 3º ciclo do Ensino Básico de Mirandela (ESM) localiza-se na cidade de Mirandela,inserida numa região tradicionalmente conhecida por Terra Quente Transmontana.

O concelho de Mirandela abrange uma área de 659 Km2, onde residem 23850 habitantes sendo notória a diminuição da população em todos os grupos etários, com exceção do grupo “mais de 65 anos” que verificou um aumento de 5,4%, nos últimos censos.

Mirandela expande-se numa depressão a 250m de altitude atravessada longitudinalmente pelo rio Tua, servindo de principal centro regional natural de ligação com os centros urbanos da região.

A Escola Secundária/3 de Mirandela serve todo o concelho e está instalada num espaço físico concluído em 1978.Funciona em regime de desdobramento, um período diurno e um período noturno, durante os cinco dias úteis da semana.

O corpo docente deste estabelecimento de ensino é constituído por 141 professores, maioritariamente do sexo feminino, com idades superiores a 40 anos e mais de 20 anos de serviço letivo e 42 elementos do pessoal não docente distribuído por diferentes categorias.

O número total de alunos é 1110, dos quais 540 frequentam o 3º ciclo e, 532 o Ensino Secundário. A resposta formativa abrange Cursos de Educação e Formação, Cursos Científico – Humanísticos e Cursos Profissionais. No período noturno funciona um Curso de Educação e Formação de Adultos, de certificação escolar de Nível Secundário.

Cerca de 60% dos pais dos alunos têm habilitações académicas equivalentes ao Ensino Básico, sendo os restantes profissionais de nível superior e intermédio.

 Objetivos do estudo

O estudo tem como objetivo geral avaliar o impacto da utilização das Tecnologias de Apoio (TA) no quotidiano de uma aluna com baixa visão e como objetivos específicos:

  • Observar a interação da aluna com as TA;
  • Verificar a rentabilização das TA no processo ensino / aprendizagem;
  • Aferir a sua aplicabilidade em diferentes contextos.

Metodologia do Estudo

Este trabalho segue uma metodologia de estudo de caso, que inclui:

  • Análise documental
  • Observações
  • Captação de imagens
  • Reuniões
  • Entrevistas com docente de Educação Especial; Diretora de Turma; Direção da Escola; Encarregada de Educação (mãe); Psicóloga; Colega de Turma; Aluna.

Colaboradora externa

O estudo contou com a colaboração de Sandra Cristina Bento Gomes, psicóloga que acompanha a aluna em sessões semanais de atendimento individual no âmbito da aceitação da diferença e da inclusão escolar e social.

Caracterização da aluna

A Ana Sofia tem 17 anos e frequenta o 11º ano do Curso Científico – Humanístico de Línguas e Humanidades na Escola Secundária/3 de Mirandela. É uma jovem meiga, educada e muito interessada pelas atividades escolares.

Segundo os dados clínicos constantes do processo da aluna, esta apresenta problemas nas funções da visão (b210), «atrofia do nervo ótico e despigmentação da retina», que comprometem a sua participação nas atividades escolares e se refletem nas atividades do seu quotidiano.

Revela dificuldades acentuadas, ao nível da leitura e da escrita (d166, d170 e d325). A caligrafia é muito irregular e de difícil compreensão (d345), sendo frequente a escrita sobreposta pelo que necessita de mais tempo e de um acompanhamento personalizado na execução dos trabalhos escritos.

Quando se desloca manifesta dificuldades acentuadas em andar sobre diferentes superfícies (d4502) e em contornar obstáculos (d4503).

A família tem conhecimento pormenorizado das capacidades da Ana Sofia, mostrando-se disponível para colaborar com a escola e revelando-se um elemento facilitador, através das atitudes positivas que influenciam o seu comportamento e participação (e310+, e410+). Os conhecidos, pares, colegas e amigos (e320+ de autoridade (e330+3 e e430+3fludor atravntes superf, e325+, e425+) têm bom relacionamento com a Ana dando-lhe apoio e inspirando-lhe confiança.

Há ainda que ter em conta pessoas em posição de autoridade (e330+, e430+) tais como, os membros da comunidade escolar que atuam para que a aluna se sinta bem na escola, no sentido de promover a inclusão e o seu sucesso educativo.

Os produtos e tecnologias para a educação (e130+) funcionam como facilitadores na promoção do sucesso, da autoestima, da inclusão escolar e social da aluna.

Atendendo ao perfil de funcionalidade da jovem foram delineadas as seguintes medidas educativas de acordo com o previsto no Decreto-Lei nº 3/2008 de 7 de janeiro.

Apoio pedagógico personalizado (Artigo 17º)

(i) Reforço de estratégias a desenvolver com a aluna, no seu grupo/turma, ao nível da organização do espaço e das atividades:

  • Utilização da mesma sala de aula em todas as disciplinas (exceto Educação Física);
  • Organização do espaço da sala de aula em função do posicionamento da aluna, o mais próximo possível do quadro;
  • Utilização de mesa adaptada de forma a evitar posturas incorretas;
  • Uso de quadro branco na sala de aula.

(iii) Antecipação e reforço de aprendizagem de conteúdos lecionados no âmbito do grupo/turma:

  • Apresentação em formato digital de fichas de estudo, resumos da matéria, fichas de trabalho e outros documentos;
  • Utilização das Tecnologias de Apoio (Software, Lupa,..) no processo de ensino / aprendizagem;
  • Diferenciação pedagógica dentro da sala de aula.

(iv) O reforço e o desenvolvimento de competências de um programa específico a desenvolver pelo docente de Educação Especial em articulação com a família:

  • Programa de promoção de aptidões na utilização das Tecnologias de Apoio, estimulando o seu uso e aplicação diária em contextos diferenciados.

Adequações no processo de avaliação   (Artigo 20º)

Alteração do tipo de prova:

  • žElaboração dos instrumentos de avaliação em formato digital e introdução dos mesmos no computador da aluna.

Instrumentos de avaliação:

  • žParticipação oral, fichas de trabalho, testes sumativos, fichas formativas, trabalhos de grupo e outros instrumentos avaliativos específicos das diferentes disciplinas.

Condições de avaliação:

  • ž Promoção de momentos de avaliação oral;
  • ž Utilização da lupa “Compact +”;
  • ž Utilização da mesa adaptada;
  • ž Utilização do candeeiro de luz branca;
  • ž Utilização do software “ZoomText” para acesso aos instrumentos de avaliação facultados em formato digital;
  • ž Alargamento do período de realização dos testes, provas e exames até 30 minutos com possibilidade de realização em sala à parte.

Tecnologias de apoio no Domínio da Visão (Artigo 22º)

Utilização em diferentes contextos do seu quotidiano das seguintes TA

  • ž Lupa Compact +;
  • ž Software Zoomtext;
  • ž Candeeiro de secretária de luz branca;
  • ž Quadro branco;
  • ž Mesa adaptada.

Situação Pedagógica

A Ana Sofia foi referenciada para avaliação ao nível das TA, no CRTIC Mirandela em 02 de fevereiro de 2009, no sentido de adequar equipamento e software como elementos facilitadores nas aprendizagens proporcionando-lhe um desempenho mais eficaz.

A referenciação por parte da Escola surgiu na sequência das dificuldades com que os intervenientes no processo educativo se deparavam na interação diária com a aluna. Era notório o constrangimento por parte dos docentes na adequação de estratégias e atividades para transmissão dos conteúdos curriculares, bem como a falta de feedback da Ana na aquisição dos mesmos.

As docentes do CRTIC Mirandela, facultaram aos elementos do conselho de Turma, documentos sobre estratégias facilitadoras de aprendizagem para alunos com Baixa Visão bem como informações sobre a problemática da aluna.

As sessões avaliativas com início a 10 de fevereiro de 2009, basearam-se em informações recolhidas presencialmente e através de análise documental conjuntamente com todos os intervenientes.

A Programação previamente elaborada para fins de Avaliação de alunos no CRTIC Mirandela com a explicitação de todas as fases e dos recursos materiais e humanos (Anexo 1), bem como a planificação individual das sessões de avaliação / reavaliação da aluna (Anexo 2), serviram de orientação básica a este processo.

Face aos dados recolhidos e às Tecnologias disponíveis, procedeu-se à aplicação do equipamento e do software e simultaneamente à observação das reações da aluna, mediante a utilização dos mesmos.

A seleção das Tecnologias fez-se atendendo ao impacto que as mesmas têm na vida da aluna, à facilidade da sua utilização, à sua aplicabilidade em diferentes contextos e às expectativas demonstradas pela aluna e pela Encarregada de Educação.

Optou-se então pela seleção das Tecnologias a seguir descritas:
-Software “ZoomText” o qual permite personalizar todo o ambiente de trabalho de acordo com as características do utilizador. Proporciona ainda o acesso a todos os programas e documentos que se encontrem no computador, assim como à informação através da Internet;
– Candeeiro de secretária de luz branca para regulação da intensidade luminosa; – “Lupa Compact +” portátil, de grande campo de visão e grande ampliação (10x), com ecrã TFT de 10 cm.

Através da DGIDC, as docentes do CRTIC Mirandela desenvolveram o processo de aquisição das Tecnologias atrás referidas. Nesta sequência e aquando da receção das TA, realizaram oficinas de formação / informação a toda a comunidade educativa acerca do funcionamento e aplicação das mesmas.

Participaram ainda na reformulação do Programa Educativo Individual – PEI no que respeita aos artigos 20º – Adequações no Processo de Avaliação e 22º – Tecnologias de Apoio, conjuntamente com todos os intervenientes no processo educativo da Ana. Este acompanhamento e monitorização têm sido uma constante desde o momento da referenciação da jovem ao CRTIC Mirandela.

É oportuno referir as dificuldades constatadas inicialmente na utilização das TA e dos auxiliares técnicos tanto para a aluna como para os agentes educativos envolvidos. Estas foram ultrapassadas pela constatação da sua importância na utilização dos resíduos visuais e ganho de autonomia pela jovem, ao mesmo tempo que se verificou uma maior eficiência visual no dia-a-dia e nas tarefas que necessitava de desempenhar.

A adaptação física e ergonómica do ambiente educativo, não foi descurada por nenhum dos intervenientes cabendo salientar a recetividade, colaboração e empenho por parte da Direção da Escola, dos docentes, da família, dos pares e dos assistentes operacionais.

A motivação, boa adaptação e empenho demonstrados pela Ana e pela comunidade escolar ao longo dos últimos dois anos permitem concluir que a utilização das TA é imprescindível no seu quotidiano, promovendo o seu sucesso educativo e social, potenciando as suas competências visuais residuais, fomentando a sua autoimagem e autonomia e melhorando a sua eficácia intelectual

Colaboradores

Este estudo contou com a colaboração de:

Aluna – Ana Sofia Pires Gonçalves
Encarregada de Educação – Ana Paula Aguiar Pires
Direção da Escola Secundária /3 de Mirandela – Maria Eduarda F. Neiva Rosa
Diretora da Turma F,11º Ano – Maria José Esteves de Oliveira
Docente de Educação Especial – Ana Paula Carvalho Resende
Colega de Turma – Maria João Felizardo Gonçalves

Referências bibliográficas e ligações Web

BATSHAW, Mark L.; PERRET, Yvonne M.; “ Criança com Deficiência – Uma Orientação Médica“; 1ª Edição, 1990, Livraria Santos Editora

BAUTISTA, Rafael, et al; “ Necessidades Educativas Especiais”; 1ª Edição, 1997, DINALIVRO

CRESPO, Alexandra et al; “ Educação Especial – Manual de Apoio à Prática”, 2008, Ministério da educação – DGIDC

LADEIRA, Fernanda e QUEIRÓS, Serafim; ”Compreender a Baixa Visão”, 2002, Coleção Apoios Educativos, Ministério da Educação

MENDONÇA, Alberto et al; “ Alunos cegos e com Baixa Visão – Orientações Curriculares”, 2008, Ministério da Educação – DGIDC

PEREIRA, Filomena;“ Educação Inclusiva da Retórica à Prática – Resultados do plano de Ação 2005 – 2009”, 2009, DGIDC e DSEEASE

Decreto-Lei nº 3/2008, de 7 de janeiro

Classificação Internacional da Funcionalidade, Incapacidade e de Saúde- CIF-CJ

http://www.cebv.pt/bv.php?id=40

http://www.esec-passos-manuel.rcts.pt/crdv/baixa.htm

http://comunicacaoaa.wordpress.com/baixa-visao-e-cegueira/

http://moodle.dgidc.min-edu.pt/

http://www.european-agency.org/publications/ereports/ICTs-in-Education-for-People-With-Disabilities/ICTs-in-Education-for-people-with-disabilities.pdf 

http://www.dgidc.min-edu.pt/educacaoespecial/index.php?s=directorio&pid=58 

http://workspace.eun.org/web/sennet/home

Ligações  sobre o estudo

Vídeo legendado em português e inglês
https://www.youtube.com/watch?v=BcArDLZg3e8
Power Point composto por 10 diapositivos no qual se faz uma apresentação sucinta do estudo de caso incluindo fotos alusivas ao mesmo.
https://www.dropbox.com/s/7pravudyedvgv1t/PPT%20Estudo%20de%20caso%20Portugal-Projeto%20SENnet.pptx

Slideshare (EN) – http://www.slideshare.net/idabrandao/case-study-portugal-sennet-en 

 

 

 

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